Crowdfunding na 1ª Pessoa

Por Rodrigo Viterbo (empreendedor do projeto “O Próximo Passo”)

A minha História

O didgeridoo é um instrumento de sopro utilizado pelos aborígenes australianos e é feito naturalmente a partir de um tronco de eucalipto roído no seu interior pelas térmitas. Conheci este instrumento em 2001 num espetáculo de teatro e desde então tenho estado ativo como músico, professor e construtor. Tenho feito formação com os melhores músicos e construtores mundiais e também com alguns mestres aborígenes australianos. Fiz parte da fundação da Associação Portuguesa de Didgeridoo e dinamizei vários projetos com vista ao desenvolvimento do didgeridoo em Portugal. Estes projetos passam por uma aposta na formação de novos músicos e construtores de didgeridoo com o objetivo de difundir um maior conhecimento e incentivar um aumento de um sentido crítico sobre o instrumento.

 

Ao longo destes 10 anos de atividade fiz chegar o didgeridoo a públicos e locais tão diversos como escolas, universidades, empresas, escolas de música, festivais, hospitais, associações, etc. Tanto através de concertos, como de workshops, de tocar, como de construção a partir de rolos de papel higiénico, técnica que desenvolvi em sequência da perda da minha primeira oficina de construção de didgeridoos. Em Agosto de 2011 comecei a partilhar um espaço de oficina com outros artistas plásticos e este espaço permitiu apostar um pouco mais na construção de didgeridoos de madeira. A utilização deste material tinha estado condicionada pela falta de ferramentas adequadas, sendo que a principal era a serra de fita, uma máquina que permite serrar os troncos no sentido longitudinal.

 

A decisão de recorrer ao crowdfunding

Pelo custo da máquina resolvi experimentar um crowdfunding.

A primeira coisa que fiz neste sentido foi inscrever-me na mailling list da Kickstarter, uma das mais conhecidas plataformas. Movido pela curiosidade ia vendo como os empreendedores divulgavam os seus projetos, que recompensas ofereciam, como faziam o follow-up, como moviam os seus projetos durante o tempo em que estavam ativos. A dado momento concluí que era importante participar como apoiante num projeto, queria conhecer o lado dos empreendedores mas também dos apoiantes. Encontrei um projeto interessante sobre um documentário em Arnhem Land, de onde são originais os didgeridoos, e nem hesitei. Este processo durou cerca de 4 meses. Entretanto comecei a pesquisar que plataformas existiam em Portugal, queria ver como este conceito se daria por cá.

 

Quando finalmente decidi experimentar comecei a ver valores das ferramentas, uma vez que decidi comprar mais 3 máquinas necessárias.

Os patamares de apoio

Depois desta decisão surgiu aquele que me parece ser o momento mais delicado num processo destes: perceber quem poderia ajudar e o que essas pessoas gostariam de receber em troca.

 

Deixo como mensagem a outros empreendedores que queiram experimentar este conceito: esta é a fase mais complicada do processo, aqui se define o sucesso do mesmo. Quanto melhor conhecerem o mercado mais facilmente irão conseguir o apoio. Apesar do sucesso do meu projeto a certa altura senti que, se pudesse, teria mudado um pouco os patamares dos apoios em termos de valores e de ofertas.

 

Por esta altura já tinha optado pela Massivemov e como só podia usar 5 patamares de apoio, tinha já um esboço com 8 patamares, sendo que já tinha sido reduzido dos originais 12 depois de ter partilhado o conceito com familiares e amigos especialmente críticos.

 

A minha fórmula foi a seguinte:

1º patamar – para aqueles que se entusiasmam com o projeto e estão imediatamente disponíveis a dar uma ajuda por pequena que seja

2º patamar – para quem quer um pouco mais, desde que a recompensa o justifique (este e o primeiro foram as minhas maiores apostas e a verdade é que foram os que me garantiram a maior quantidade de apoiantes)

3º patamar – desenhado para todos aqueles que poderiam dar um pouco mais e queriam começar a tocar didgeridoo, este era um “pack” muito cativante

4º patamar – para todos aqueles que estariam com vontade de investir na compra de um didgeridoo e poderem assim apoiar um projeto inovador

5º patamar – o apoio “premium”, uma coleção de agradecimentos para quem quisesse realmente apostar no projeto

 

Revisão do processo e equipa

A fase seguinte foi discutir o projeto com familiares e amigos, pessoas de toda a confiança que me acompanham há anos e que não têm problemas em dizer se discordarem de alguma coisa. Estas pessoas ajudaram-me imenso com questões que não me tinham ainda ocorrido e que foram importantíssimas para o sucesso do projeto.

Outra arma forte que utilizei, foi a equipa que juntei para me ajudar. Desde o início que contei com a ajuda da Sandra Neves em toda a parte artística e visual das recompensas (foi ela quem me aconselhou os crachás e as gravuras), do Emanuel Santos com as decisões sobre as t-shirts, do Rui Alves Leitão com a filmagem, realização e horas a fio de discussão do projeto, da Ana Coelho pela legendagem do vídeo e da Inês Leitão pela tradução. Estas pessoas identificaram-se com o projeto e ajudaram a divulgar nas suas redes. Sem esta equipa eu teria conseguido, mas não da mesma forma.

No momento da publicação do projeto apareceu uma nova força: a equipa da Massivemov que avaliou os dados que submeti e analisou cada decisão minha identificando pontos fortes e fracos da minha proposta.

 

Publicação e divulgação

Estava tudo pronto, publicou-se o projeto, começava a contagem decrescente, tinha 45 dias para provar a mim, à minha equipa, à Massivemov e a todos os que seguem o meu trabalho que afinal ainda era possível fazer coisas em Portugal e ir atrás dos nossos sonhos.

Ao longo destes dias não tive descanso, por mais que divulgasse o projeto ia-me apercebendo das várias dificuldades: a imaturidade do conceito de crowdfunding em Portugal que me obrigava a explicar sistematicamente como funciona, a quantidade de publicidade e informação deturpada que percorre a Internet que faz com que as pessoas desconfiem de tudo o que leêm, a esmagadora quantidade de informação que circula que polui os canais disponíveis distraindo os utilizadores.

Os principais canais que utilizei para divulgar o projeto foram a minha mailling list, o meu site, o meu blogue, o meu perfil linkedin, o meu perfil de facebook e a minha conta tweeter.

Há muitas formas de divulgar um projeto destes, a imaginação é que define os limites, seja através de vídeos relacionados, mensagens pessoais, relembrando o link para a plataforma, pedindo a amigos para espelharem a nossa informação nos canais deles, de forma presencial em eventos de família ou amigos em que se pode utilizar um computador para mostrar o projeto ao vivo, enviando emails a amigos e familiares para ir relembrando, fazendo atualizações na própria plataforma, fazendo chegar as últimas novidades diretamente aos nossos “embaixadores” (embaixadores são aquelas pessoas que se entusiasmam tanto com o nosso projeto como nós próprios), publicando atualizações constantes e relevantes na página do projeto, divulgando objetivos (Estamos a 45% será que ainda hoje conseguimos chegar aos 50%? Chegámos aos 105% quem quer levar isto até aos 110%?), respondendo pronta e claramente a todas as dúvidas que nos colocam, fazendo entender que qualquer ajuda é valiosa… uma das pessoas que mais me apoiou não deu dinheiro nenhum mas convenceu umas 10 pessoas a dar.

Os exemplos são intermináveis, a consulta de outros projetos nas inúmeras plataformas existentes dá boas pistas e ideias para a dinamização de um projeto de crowdfunding. O mais importante é nunca esquecer o próprio sentido da palavra: crowdfunding – financiamento pela multidão e é precisamente a multidão que nos vai apoiar. Para um empreendedor 1000 euros pode ser um número difícil de vencer mas se 50 amigos nos derem 20 euros consegue-se esse valor sem grande esforço para todos.

É importante ainda acrescentar que há três momentos fulcrais no processo:

– o arranque, quanto mais pessoas apoiarem o projeto no início mais fácil será que mais e mais pessoas se juntem. Uma boa estratégia é averiguar se aquelas pessoas a quem mostramos o projeto antes de o publicar pretendem ajudar e se sim tentar que o façam logo após a publicação.

– a chegada aos 100%, não há quem não se entusiasme com fazer parte de um projeto em vias de sucesso, algumas pessoas dispõem-se a um pequeno esforço suplementar para dar esse empurrão, eu próprio já o fiz noutros projetos.

– os novos limites depois dos 100%, quem acredita no projeto e o vê passar dos total pretendido gosta de ver este sucesso a ser aumentado e ajuda na divulgação de novos objetivos.

 

Concluindo

Não conheço uma única história de um utilizador de um projeto de crowdfunding que tenha tido sucesso e tenha desonrado o que prometeu às pessoas ou não tivesse sido sincero com os seus apoiantes. Parece um conceito novo mas é utilizado de várias formas e com várias nuances desde sempre, hoje em dia a Internet facilita-nos a sua utilização.

Havendo uma motivação, uma história e atitudes sinceras, honestas e dedicadas, muita motivação, empenho e trabalho é muito improvável que um projeto destes não chegue a bom porto.

Não defendo que o crowdfunding seja a única solução e a melhor para todas a pessoas e casos mas é uma ferramenta interessantíssima. Assim que publiquei o meu projeto senti logo uma vitória: pelo menos estava a tentar e a experimentar.

Depois do fim e do sucesso houve algumas pessoas, que estiveram sempre presentes e a puxar por mim, que me confessaram que nunca tinham acreditado em pleno que eu conseguisse, eu acreditei sempre que era possível.

 

Fica um agradecimento a toda a minha equipa, à Massivemov e a todos os que me apoiaram, independentemente da forma como o fizeram.

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